Eu sou ético, a política não.

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Se houvesse uma pesquisa nas ruas, certamente, o governo seria bem votado como lugar menos ético em nosso país. Não é de hoje, mas principalmente pela atual situação que passamos – crise na política -, que encontramos facilmente alguém para citar aquela máxima: “político é tudo ladrão”.

Porém, nunca é demais lembrar que eles são nossos representantes, uma pequena parcela da população escolhida para ser a voz do povo na construção e defesa dos nossos direitos, com justiça, honestidade e transparência. Assim, bradamos nas ruas em manifestações e redes sociais. Mas será que entendemos o significado de representante?

Representantes são aqueles que escolhemos, confiamos, apoiamos e acompanhamos para auxiliar e confirmar que nossas ideias, sugestões e reclamações sejam atendidas ou sanadas, para que nossas cidades e país sejam cada vez melhores.

Os políticos eleitos falam por nós, e devemos observar para que essa fala seja o que nós pensamos. Apontar o erro do outro é fácil. Deixar o outro errar também. Igualmente fácil é tentar eliminar a culpa: “eu não votei nele”. E aí encontramos outra definição difícil de absorver, a de maioria e unidade.

Quando descobrimos que determinado político não agiu com honestidade, tentamos eliminar nossa responsabilidade culpando os que nele votaram, esquecendo que somos uma única nação. Escondemo-nos nas barreiras estatais ou sociais e somos até preconceituosos julgando um e outro. A maioria vence e passa a representar todos como únicos, e devemos todos, quem votou nele ou não, acompanhar como nosso representante. É responsabilidade de todos fiscalizar os representantes eleitos.

Estaria a falta de ética concentrada nessa parcela política da sociedade? Nossos representantes… “Se eu estivesse lá, também roubaria” é outra fala frequentemente ouvida nas discussões políticas, quando a pessoa quer encerrar o assunto, pois “política e futebol não se discutem”.

E não se discutem mesmo: não se discutem nas escolas, não se discutem em casa, com as crianças, nos grupos e instituições, no trabalho. Política virou sinônimo de briga e olha aonde chegamos: crise na política (e também no futebol). As semelhanças entre essas artes não param por ai: trabalho em grupo, liderança, respeito, patrocínio de grandes empresas, olhos fixos apenas nos resultados positivos para determinado grupo, desvio de dinheiro. E a falta de discussão na sociedade… Poderia ser diferente, deve ser diferente.

Colocamos, quando possível, nossas crianças em escolas desde cedo. Fazemos sacrifícios para pagar boa educação. Escola particular é cara, mas a pública é ruim e culpamos isso apenas ao governo. Matemática, português, história, geografia, inglês… E política? “Não, política não é coisa da escola!” Mas é na escola que formamos e informamos nossas crianças, o futuro da nação. Mas política não se discute.

Depositamos nossas esperanças nos jovens de hoje, chamamos de futuro da nação. Esperamos que eles consertem nossos erros, recriem florestas, desenvolvam nossa economia, sejam inovadores, pesquisem, governem com honestidade. Mas ensinamos que política é suja, coisa de ladrão. E não se discute.

Falamos do país, que não está bom, que está em crise, que não oferece oportunidades. Certo, mas vamos agora direcionar nossa visão para nossa cidade, observar em pequena escala para depois alargar nacionalmente.

Brasil. Bahia, Itabuna. Tínhamos um rio vivo e éramos referência no comércio do cacau. Perdemos a liderança na produção de cacau, poluímos um rio, chegamos a uma insustentável crise hídrica, sujamos nossas vias e tornamos desagradável e desinteressante um passeio pelo comércio. E colocamos a culpa nos lideres políticos.

É responsabilidade do governo educar o cidadão, limpar as ruas, incentivar e oferecer emprego. O cidadão também é responsável. Não adianta fazer campanha por um candidato, ir para passeata, buzinar nas carreatas, votar e abandoná-lo nos quatro anos seguintes. Não é ético prometer e não cumprir, assim como não é ético apontar, culpar e não fazer o possível para mudar.

Se está ruim, se não está agradando, se não está cumprindo o plano de governo, a sociedade tem que se unir para cobrar e exigir as mudanças que acreditam cabíveis. A solução é unir, formar grupos e sim, discutir política… E também o futebol! Esporte é uma incrível forma de firmar na pessoa os conceitos de disciplina, respeito, trabalho em grupo (mesmo os individuais), honestidade e aceitação de resultados. Características de um bom e ético político. O futebol e a política, a torcida e o cidadão, precisam aprender mais com outros esportes.

Ética, palavra de conceito amplo, difícil de definir. Envolve caráter, boas intenções, boas ações, solidariedade, união, respeito, se colocar no lugar do outro, agir em prol do bem geral sem ferir a moral, pensar no próximo e não somente em si.

Se fossemos definir características para os nossos políticos certamente falaríamos o oposto das citadas para ética. Sendo assim, na nossa visão, nossos representantes, aqueles que falam por nós, não são éticos. Onde está faltando ética então? Na distante política ou em nós? Quem tem que mudar para reestruturar nosso governo? Quem tem que mudar para educar nossas crianças? Quem tem que mudar para formar políticos éticos? Ética é principalmente não apontar o erro no outro, é reconhecer em si e buscar transformar-se sempre. Ética é transmitida pelo exemplo.

renata

 

 

Renata Sales Araujo é bacharel em línguas estrangeiras
e membro do grupo de trabalho Jovens em Ação.

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